
O casamento no futuro - Martha Medeiros
SEMANA PASSADA UMA REVISTA publicou matéria de capa sobre casamentos abalados pela chamada “traição virtual”. É assunto quentíssimo. Segue intensa a troca de mensagens maliciosas, através da internet, entre pessoas que não se conhecem — mas podem vir a se conhecer. É o jogo da sedução sendo exercitado a qualquer hora, dentro de casa, com estranhos. Ulalá.
Nem é preciso procurar: cedo ou tarde uma oportunidade se apresenta e poucos rejeitam a chance de testar se ainda conseguem provocar um encantamento em alguém, mesmo que não estejam dispostos a levar o romance adiante. O nome disso é flerte, azaração. Todo mundo sente esta necessidade em algum momento. Você que agora está pensando “eu não”, sente também — ou vai sentir um dia. O que diferencia uns dos outros é que alguns reprimem este desejo para não correr nenhum risco, para não afrontar Deus ou por medo de si próprios.
A internet facilitou o encontro e a onda da “traição virtual” se propagou. Mas não há nada de novo, a não ser o método. Homens e mulheres sempre conviveram com essa espada sobre a cabeça, e conviverão até o fim dos dias, a não ser que reduzam o espaço para a fantasia em suas vidas.
Torna-se cada vez mais urgente refletir sobre esta instituição tão idealizada: o casamento. Antigamente, o pai trabalhava para pagar as contas, a mãe ficava em casa cuidando dos filhos e todos viviam felizes para sempre — ou acomodados para sempre. Depois mudou: a mulher saiu da esfera privada para a pública e o casal passou a ter os mesmos direitos e a mesma independência. Um avanço.
Estava tudo bem até que a internet colocou o planeta inteiro no nosso colo. Hoje você faz supermercado, reservas de hotel, transferências de dinheiro, participa de reuniões, declara seu imposto de renda, distribui fotos para a família, tudo sem botar o nariz pra fora de casa. Natural que o adultério se valesse desta facilidade também.
Não há quem, sendo um sedentário emocional, não sonhe em recuperar o desejo e exercitar a sedução. A sensação de estar “condenado” a uma prisão perpétua — ainda que uma confortável prisão domiciliar — estimula planos de fuga. É natural. Mais natural do que a fidelidade, se formos 100% honestos.
Saída? Algumas pessoas casam duas ou três vezes na vida, às vezes quatro. Isso ainda é visto como uma exceção. A tendência, a meu ver, é que vire regra. No futuro, as pessoas reavaliarão seu enfoque romântico: o “pra sempre” perderá a importância. Mais valerá uma relação curta e intensa, sem válvulas de escape, do que uma eterna, porém propensa a frustrações. As crianças serão educadas para amores provisórios, e não definitivos. Os filhos saberão desde cedo que o pai e a mãe provavelmente constituirão mais de uma família, com possibilidade de novos irmãos. Como já vem ocorrendo, nenhuma novidade até aqui. O problema é que esta fórmula ainda gera muito sofrimento, porque continuamos sendo educados para o “pra sempre” e cultivando uma culpa infinita, todos: tanto aqueles que se resignam como aqueles que se rebelam.
Se quisermos ter relações mais honestas e apaixonantes, sem a busca de subterfúgios, teremos que aceitar a diminuição do tempo de convívio sem considerar que isso seja um fracasso. Só uma mudança de mentalidade poderá gerar uma sociedade menos adúltera. E ainda assim, não boto minha mão no fogo.